“O Povo divertiu-se. Ao menos nestes três dias esqueceu a carestia que o oprime" - Bailes de Máscaras, Foliões e Festas de Carnaval na cidade de Évora de oitocentos”

in (2021) CONDE, Antónia Fialho; SÁ, Vanda de; PAULA, Rodrigo Teodoro de (eds.). Sonoridades Eborenses, Edições Húmus e Autores.

RESUMO

A festa do Carnaval tem merecido amplos estudos de natureza interdisciplinar pelo seu significado múltiplo que pode ser descrito como “um sistema simbólico associado à transição do Inverno para a Primavera, do velho para o novo, da morte para a vida, do frio para o calor” (Simões 2012, 103). De acordo com a tradição cristã, a própria palavra ‘carnaval’ deriva do latim ‘carne levamen’ (‘privação de carne’) ou ‘carne vale’ (‘adeus carne’), coincidindo com “a decisão de São Gregório Magno (590-604) de chamar ao domingo anterior à Quaresma ‘dominica ad carnes levandas’ (Teixeira 2017, 27). Tal como em muitas cidades europeias, também em Évora as manifestações carnavalescas ocuparam praças e ruas, organizadas de forma cómica e neutralizando as regras e bons costumes. A negociação de regras civilizadoras no século XIX fez sentir-se nesta cidade alentejana, criando-se a narrativa de uma sociabilidade equilibrada e ilustrada que visava uma aproximação aos centros de cultura, na mesma medida em que disciplinava os excessos. O Carnaval na rua era o mais visado, a par de uma promoção de Bailes e Festas de sociabilidade regulamentados e integradores da “melhor sociedade”, em particular nos Teatros e Salões. No caso dos espaços públicos, existem registos do início do século XX da utilização do piso térreo do Convento de Santa Mónica para a realização de bailes de Carnaval (Pombinho 2014, 74-75). Relativamente aos teatros, para além do Teatro Eborense, o Teatro Camilo Castelo Branco “chegou mesmo a ser ponto preferido de diversões, quando da realização dos seus alegres e divertidos bailes carnavalescos” (Godinho 1980-1981, 101). Como é sabido a ocupação das ruas continuaria persistente, ganhando nova relevância com a tradição de Brincas que remontam aos finais do século XIX, e atingiriam o auge da sua vitalidade entre 1940 e 1960, quando se contabilizaram “numerosos grupos de Brincas das várias quintas dos arredores de Évora.” (Bezelga 2010, 3-4). Maria Ana Bernardo (2001) aponta para um investimento nos Bailes de Máscaras como estratégia de compensação pela insuficiência de entretenimentos na cidade. O presente estudo pretende analisar e articular: (a) a dinâmica de sociabilidades em voga no século XIX e respetiva ocupação do espaço sonoro da cidade no tempo de Carnaval; (b) proceder a um levantamento de eventos e reportórios; (c) enquadrar os Bailes de Máscaras com a restante programação dos Teatros de Évora; (d) estudar a narrativa “civilizadora” a propósito dos festejos de Carnaval eborenses.

PALAVRAS-CHAVE

Évora, Bailes de Carnaval, Paisagem Sonora, Música

BIBLIOGRAFIA

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